Quando você viaja a Buenos Aires chegando de qualquer parte do Uruguai, a primeira impressão é que cidade caótica. Conversando com amigos uruguaios, a maioria torcia o nariz para o trânsito, para quantidade de pessoas, para os prédios gigantes e o barulho da capital argentina. Jesús, um amigo uruguaio, uma vez me disse: “Visitei uma vez e logo percebi que não é pra mim. Não gostei. É muito estressante.”

Mais do que uma crítica direta a cidade, ouvir isso tudo e chegar em Buenos Aires me fez pensar na dinâmica de vida que brota em lugares com ausência de estrutura para a sociedade viver mais harmoniosamente.

Em países e cidades como essas, quem deveria ajudar (o governo) muitas vezes está longe, com a cabeça cheia de prioridades que nada tem a ver com o cuidado da população. O reflexo disso, da falta de serviços públicos como saúde e educação por exemplo, cria um povo descrente da vida coletiva que, independente de classe social, buscam solitários uma maneira de sobreviver na selva.

Invariavelmente o individualismo é o pilar principal, que guia quase todos, seja você rico ou pobre. As escolhas sempre precisam responder uma pergunta: O que é melhor pra mim? Sistemas são criados para que apenas reproduzam a fórmula de anos atrás e satisfaçam o ego e o bolso de meia dúzia em detrimento da miséria de todo o resto. Não é possível mudar o caminho, desviar a rota. Criamos mentiras e dogmas para justificar escolhas mal feitas. Mergulhados nesse mundo automático, produzimos seres humanos que querem ser mais que outros, que querem mostrar poder e no final se tornam depressivos e infelizes. Não conseguem olhar para dentro de si.

Fiquei pensando, dentro do ônibus cheio, num calor de 35 graus e em mais um dia de trânsito: Será tão difícil enxergar-se? Olhar para dentro e perceber nossas reais fraquezas e virtudes, viver as dores para aprender a superá-las. A única escolha não pode ser viver na superficialidade da vida de consumo que a sociedade nos exige. Mesmo que o caminho seja difícil, doloroso, não vale a pena tentar? E mais, será que não deveríamos tentar alcançar o mundo do próximo afim de viver em uma sociedade mais sã? Se despir do lacre de sua existência e se doar, não como caridade ou trabalho social, mas como um ato de generosidade e empatia. Uma tentativa real de nos colocarmos no lugar do outro para tentar compreender suas emoções e sentimentos em qualquer que seja a situação. De sairmos de nossa zona de segurança para nos aventurar a olhar ao lado e oferecer ou pedir ajuda, sem saber como seremos recebidos.

Longe de um movimento de ajuda ao próximo apenas. Creio que um passo nessa direção nos trará um autoconhecimento inimaginável. Nos fará hábil numa disciplina que a escola não pode ensinar, a disciplina da vida.

Como acontece todos os anos, dezembro é o mês da solidariedade. O mês de nos redimirmos de todas merdas que fizemos durante o ano comprando o presentinho para a criancinha da periferia que mandou cartinha para o velho barbudo. Infelizmente esse sentimento passa mais rápido do que amor de verão. O farol abriu e a vida tem pressa para acontecer.

O natal já se foi. Portanto não posso mais pedir presente para o papai noel. Apesar de estar longe da praia, mentalizarei que estou pulando sete ondas na virada do ano para fazer o pedido à Iemanjá.

Que possamos nos esforçar para sair da zona de segurança para enxergar e exercitar a generosidade e a compaixão. Que surpreendamos com o novo que nos espera ao escolher viver relações humanas, percebendo mais as pessoas ao lado. E que, fundamentalmente, a empatia seja um sentimento presente na vida de toda humanidade.

Um 2014 re lindo para todos nós.

Dá-lhe!

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