A primeira despedida

Nunca gostei de despedidas. Sempre me sentia triste em deixar para trás as pessoas ou dar um abraço no amigo que partia. Aos poucos tenho mudado de ideia. E mudei porque a despedida me faz voltar no tempo e lembrar de convivência, de histórias, de alegrias, dos perrengues. Nesse momento passa um filme na minha cabeça e percebo a importância das pessoas em determinados períodos da vida ou nela toda. Refletimos, quantificamos, abrimos uma gaveta em nossos corações, guardamos e trancamos essa lembrança a sete chaves.

A sexta-feira treze estava mais para uma comédia feliz do que para noite de terror. Acordamos, almoçamos e fomos para o Repique. Um pouco atrasado claro, como todo latino que se preze.

Maria Eugênia e Alejandro, os chefes do projeto, em mais um gesto de generosidade fizeram questão de organizar uma reuniãozinha para celebrar e dar adeus ao camaradas brasileiros. Imaginávamos que seria um encontro com uns comes e bebes para darmos umas risadas, confraternizar e dar um abraços de despedida. Fomos surpreendidos.

Os dois começaram a nos contar o que gostariam de fazer naquele momento. Seria uma troca de experiência. Falaríamos como foi passar um mês no projeto Repique, o que vimos de bom e o que poderia melhorar. Em seguida, fariam o mesmo com a gente.

Quem me conhece sabe o quanto gosto de trocar impressões, falar sobre o mundo, sobre o ser humano. Conseguir fazer isso no Repique, foi especial. Muitas vezes sou “chatão” que quer filosofar. Porém quero fazer isso com todos locais e gringos que cruzarem nosso caminho.

Eu e a Tá falamos de como aquele experiência nos fez enxergar mais além. Como ajudar as crianças, seja rindo, puxando a orelha, acompanhando grandes problemas como do menino Junior (A Tá escreveu sobre dele aqui) nos fez crescer como ser humano. Falamos da ausência de rancor por parte do time quando alguma criança ou adolescente faziam coisas erradas (e tem coisas escabrosas), da generosidade, da alegria e do sorriso no rosto como regras básicas de boa convivência. Sobretudo, pontuamos o tratamento que recebemos de todo time, que nos recebeu com carinho e afeto, como se estivéssemos trabalhando há anos juntos.

Era a vez de ouvirmos o que a equipe de seis pessoas tinham para nos contar. Maria Eugênia começou dizendo a facilidade com a qual nos adaptamos a tudo, as crianças, ao dia a dia de trabalho, a equipe. Falou do rápido envolvimento que tivemos com a crianças ao ponto de perguntarem por nós quando sentiam nossa falta em alguma atividade. Para terminar agradeceu por poder fazer parte da nossa viagem. Para Gabi, nossa chegada foi como a batida de dois trens tamanho o choque de realidade. A psicóloga, que faz uma jornada tripla para poder proporcionar uma vida “confortável” ao seu filho nos disse que parou para pensar e refletir sobre suas escolhas depois que deparou com o nosso projeto de vida buscando um caminho diferente. Fernanda elogiou nossa coragem de correr atrás do que acreditamos,  de mudarmos a direção de nossas vidas se assim queremos. Já Jesus brincou com o fato de realmente vestirmos a camisa do projeto (ganhamos camisetas da ONG e trabalhamos quase todos os dias com elas) a todo momento, ajudando nas horas boas e nos pepinos. Alejandro foi o último. Ele nos agradeceu pela dedicação, pelo companheirismo e pelas horas que simplesmente nos dispusemos a oferecer ajuda ao próximo, contrastando com mundo cada vez mais egoísta. O maior brincalhão da turma deixou a graça de lado para elogiar nossa viagem, a crença verdadeira pela busca de um mundo mais justo e a coragem de correr atrás. Terminou nos desejando sorte em nossa “aventura de dar”.

Saímos de lá com a alma lavada tamanho sentimento pleno de realização. Na volta para casa, dentro do ônibus, me pegava sorrindo de alegria pensando nas horas passadas. Mais do que os elogios, conversar sobre nossas crenças e ouvir o que ouvimos nos deu mais gana ainda de continuar. Sabemos que a estrada é dura, mas comprovamos que a recompensa vem em dobro quando colocamos verdade e amor em algo que acreditamos.

Longe de mim querer exaltar ou nos colocar num lugar que não merecemos. Somos todos iguais. O que tentei passar foi a feliz emoção de ter participado de um projeto com pessoas incríveis, prontas para te ajudar e com crianças carentes de amparo e atenção, que querem apenas alguém para segurar a mão e ajudá-las na caminhada.

A vontade de ficar foi grande. Sinal da intensa felicidade que vivemos nesses curtos mas imensos trinta dias. Temos fé que como esse, muitos outros virão.

Muito obrigado, de coração.

Dá-lhe!

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