A gratidão que transborda

Quando decidimos viajar, o Calle America representava a busca de um novo sentido para nossas vidas. Como diz Eliane Brum “Em geral, uma vida que faz sentido é aquela em que os sentidos são construídos para serem perdidos mais adiante e recriados mais uma vez e sempre outra vez. É o vazio, afinal, que nos faz inventar uma vida humana – e não morrer antes da morte.

Nossa vivência com pessoas, sejam nos trabalhos ou fora dele, serviria de insumo para construirmos, pouco a pouco, a vida que acreditamos. Ou seja, um modo de vida mais simples, sobretudo que valorizasse a relação entre as pessoas como forma de mudar realidades. Para construirmos isso, precisávamos nos enxergar, nos questionar, nos recriar.

Nada disso mudou. Porém escolher mudar e ir por caminhos incertos, onde poucos ou nenhum passo foi dado, me deixou perdido no começo, com medo de não me encaixar no próprio modelo que defendia. Buscar trabalho sociais foi difícil, com burocracias e lentidão. Naturalmente as comparações com a forma que vivia, mais segura e certa, me mostrava que aquilo tudo era frágil. O sentido de pertencimento fazia falta. Me sentia um estranho dentro do nada.

A maré mudou. Ao perceber que as coisas não iriam rolar como estávamos tentando, buscamos caminhos alternativos e fomos brindados pela nossa teimosia.

No Ceprodih conhecemos mulheres maravilhosas e guerreiras, que convivem com uma realidade brutal que insiste em colocar pedras em seus caminhos. Ao invés de entregar os pontos, a luta pela mudança as fazem enxergar a luz no fim do túnel e esquecer dos problemas ao colocar o pé na ONG. Na oficina de vitrofusão aprendem a fazer diversos objetos como saboneteira, pratos, colares, brincos, cinzeiros e etc, a partir de vidro derretido. A descontração, o trabalho em equipe e a dedicação marcam o dia a dia delas lá dentro. Dá uma alegria imensa ficar naquelas salinhas com Laura, a professora, e suas alunas. Tudo ficou mais bonito quando ouvimos de uma delas um “Olá, estava esperando por vocês. Achei que vocês não viriam mais.”

O que era pra não ser, foi. E no El Abrojo, de pouquinho em pouquinho fomos nos incorporando a um dos projetos, o Repique, e quando menos esperávamos estávamos ao lado das crianças, ajudando-as nos deveres de casa, brincando de esconde-esconde, participando das oficinas e levando-as para aula de natação. O coração inflou mais ainda de emoção quando Alejandro deu a ideia de fazer uma comemoração entre os colaboradores para festejar as conquistas do ano e servir como despedida da gente.

Ouvir o “muchas gracias por todo” a cada fim de dia de trabalho nas duas organizações é irônico. Minha mãe diz, e concordo com ela, que aprendemos muito mais do que ajudamos. Novos ensinamentos brotam todos os dias. Mesmo não tendo terminado nossos trabalhos, o sentimento de gratidão é imenso. Fomos acolhidos como parte de tudo isso com carinho, atenção e companheirismo.

Como o velho clichê da intensidade ser mais importante do que a frequência, estamos certo de que, nesse pouco tempo que estamos no Ceprodih e no El Abrojo, vivemos experiências incríveis e nos tornamos parte dessa família.

Dá-lhe!

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2 COMENTÁRIOS

  1. Ola, este sentimento de “utilidade” e mesmo recompensador e sem querer crescemos junto com quem achamos que estamos ajudando a crescer !!!!!

    Bjs aos 2 e fiquem firmes nas adversidades do caminho !!!!

    Gerson

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